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Feminicídio premeditado expõe cultura de posse e falhas na prevenção à violência contra a mulher

O assassinato de Herika Jordana, em Afonso Bezerra, na região Central do estado, não é apenas mais um crime registrado nas estatísticas. É o retrato cruel de uma mentalidade que insiste em tratar mulheres como propriedade e não como pessoas livres para decidir sobre suas próprias vidas.

O autor, de 19 anos, preso em flagrante, confessou à Polícia Civil do Rio Grande do Norte que premeditou o crime após descobrir que a ex-companheira estaria se relacionando com outra pessoa. A motivação, por si só, escancara a raiz do problema: o sentimento de posse, o machismo estrutural e a incapacidade de aceitar o fim de um relacionamento.

Segundo as investigações, o suspeito teria utilizado o celular da própria mãe para se passar por ela e atrair a vítima até sua residência. Lá, armado com um revólver calibre .38, efetuou disparos que tiraram a vida da jovem. Após o crime, ainda tentou ocultar provas ao descartar a arma em uma área de mata. Não foi um ato impulsivo. Foi planejado.

A frieza relatada no depoimento e a estratégia usada para atrair a vítima revelam um comportamento calculado, típico de quem acredita que pode decidir o destino de outra pessoa. O feminicídio, nesse contexto, deixa de ser apenas um crime passional — termo que precisa ser abandonado — e passa a ser reconhecido pelo que é: violência de gênero motivada pela não aceitação da autonomia feminina.

A prisão em flagrante, a autuação e o encaminhamento ao sistema prisional são respostas necessárias do Estado. Mas a pergunta que permanece é: poderia ter sido evitado? Quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a sociedade compreenda que o controle, o ciúme doentio e a obsessão são sinais de perigo, não de amor?

A comoção em Afonso Bezerra é legítima. A revolta também. No entanto, indignação momentânea não basta. É preciso reforçar políticas públicas de prevenção, ampliar o acesso a canais de denúncia, fortalecer a rede de proteção às mulheres e, principalmente, investir em educação para desconstruir a cultura da posse e da violência.

Herika não é apenas mais um nome. É mais uma vítima de um ciclo que insiste em se repetir. E cada repetição representa o fracasso coletivo em proteger quem mais precisa.

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