
Da antiga exploração das salinas ao surgimento de uma cidade marcada pelo trabalho, pelo comércio e pela resistência, Macau construiu sua identidade às margens do rio Açu e diante das águas do Atlântico
A história de Macau, no Rio Grande do Norte, está profundamente ligada ao sal. Antes mesmo de se transformar em município e, posteriormente, em cidade, a região já despertava a atenção pela abundância das salinas naturais e pela qualidade do sal produzido espontaneamente pelas características do solo, dos ventos e das águas.
A extração do sal foi um dos fatores determinantes para o povoamento do Rio Grande do Norte. Documentos históricos do início do século XVII já registravam a riqueza das salinas potiguares. Entre elas estavam aquelas que, séculos mais tarde, fariam parte da história de Macau.
Em 20 de agosto de 1605, Jerônimo de Albuquerque concedeu aos filhos Antônio e Matias uma área onde existiam duas salinas. O documento descrevia uma terra que, segundo o registro da época, praticamente não servia para outras atividades, mas era especialmente apropriada para a produção de sal, que ali se formava naturalmente.
O historiador Luís da Câmara Cascudo relacionou essas salinas, localizadas aproximadamente quarenta léguas ao norte, às terras que posteriormente seriam identificadas como pertencentes à região de Macau.
O sal e a economia do século XVIII
Durante o século XVIII, a exploração do sal no Rio Grande do Norte ganhou importância econômica e passou a estar diretamente relacionada à produção de carne-de-sol, atividade que alcançou grande escala nas chamadas “oficinas” instaladas na região do baixo Açu.
A produção movimentava o comércio e contribuía para o desenvolvimento econômico da região. Entretanto, em 1786, uma determinação da Câmara de Natal interrompeu de forma inesperada aquela atividade. A justificativa apresentada era de que a exportação de carne provocava prejuízos à Fazenda Real, especialmente em razão do não pagamento de tributos relacionados ao abate do gado.
Com a interrupção da atividade, a indústria da carne praticamente desapareceu e o chamado porto das “oficinas” entrou em decadência.
Outro fator que prejudicou a economia salineira foi a criação, pela metrópole portuguesa, do monopólio do sal. As salinas do Nordeste, incluindo as existentes nos territórios que hoje correspondem a municípios como Açu, Macau, Areia Branca, Mossoró e Touros, ficaram relegadas ao abandono durante determinado período.
A exploração somente voltou a ganhar força a partir de 1802.
Da ilha de Manuel Gonçalves ao surgimento de Macau
A formação do povoamento de Macau possui uma história diretamente relacionada ao avanço do mar.
Os primeiros habitantes estavam instalados na ilha de Manuel Gonçalves, onde viviam portugueses dedicados principalmente à exploração e ao comércio do sal.
A partir de 1825, porém, a ilha começou a ser progressivamente invadida e obstruída pelas águas do Atlântico. A situação tornou-se cada vez mais difícil até que, em 1829, os moradores foram obrigados a abandonar o local.
Em busca de uma nova área para viver e continuar suas atividades, escolheram a ilha de Macau, localizada na foz do rio Açu.
Foi nesse movimento de deslocamento, provocado pela força da natureza e pela necessidade de sobrevivência, que começou a se consolidar o povoamento que daria origem à cidade de Macau.
Entre os fundadores do povoado estavam o português Capitão Martins Ferreira, seus quatro genros — José Joaquim Fernandes, Manuel José Fernandes, Manuel Antônio Fernandes e Antônio Joaquim de Sousa — além de João Garcia Valadão e do brasileiro João da Horta.
O significado do nome Macau
A origem do nome Macau também está cercada pela história e pela influência marítima.
Macau seria uma corruptela da palavra chinesa Ama-ngao, expressão associada à ideia de abrigo ou porto de Ama, referência à deusa dos navegantes.
A denominação combina, de maneira simbólica, com a trajetória do município: uma terra de águas, navegantes, portos, salinas e homens que encontraram no mar e no sal os caminhos para construir sua sobrevivência.
A transformação em município e cidade
O crescimento do povoado levou à sua organização administrativa.
Macau foi elevada à categoria de vila pela Lei Provincial nº 158, de 2 de outubro de 1847, que também transferiu para a povoação de Macau a sede anteriormente vinculada a Angicos.
Posteriormente, a Comarca de Macau foi criada pela Resolução nº 644, de 14 de dezembro de 1871.
Poucos anos depois, veio um dos momentos mais importantes de sua história administrativa: a Lei Provincial nº 761, de 9 de setembro de 1875, elevou Macau à condição de cidade.
A partir daí, Macau consolidou sua posição como importante núcleo urbano da região salineira potiguar.
A formação administrativa e o nascimento de Pendências
Ao longo do tempo, o território de Macau passou por mudanças administrativas.
O distrito de Macau foi criado pela Resolução Provincial nº 294, de 19 de agosto de 1854. Nas primeiras divisões administrativas do século XX, o município era constituído pelo distrito-sede.
Em 1938, por meio do Decreto-Lei Estadual nº 603, de 31 de outubro, foi criado o distrito de Independência, posteriormente anexado ao município de Macau.
Durante o período de 1939 a 1943, Macau passou a ser constituído por dois distritos: Macau e Independência.
Em 1943, o distrito de Independência recebeu uma nova denominação: Pendências.
A configuração permaneceu até 1953, quando a Lei Estadual nº 1.039, de 12 de dezembro, desmembrou o distrito de Pendências do território de Macau, elevando-o à categoria de município.
Desde então, Macau permaneceu constituído pelo distrito-sede, configuração registrada nas divisões territoriais posteriores.
O sal como identidade de um povo
Mais do que uma atividade econômica, o sal ajudou a moldar a identidade de Macau.
As salinas determinaram rotas, atraíram trabalhadores, estimularam o comércio e contribuíram para o surgimento de comunidades. O sal, extraído sob o forte sol do litoral e impulsionado pelos ventos característicos da região, tornou-se parte indissociável da história econômica e cultural do município.
Macau cresceu enfrentando as dificuldades impostas pela natureza, desde a transferência dos primeiros moradores da ilha de Manuel Gonçalves até os desafios econômicos provocados pelas mudanças na exploração salineira.
A cidade nasceu, portanto, da combinação entre mar, sal, trabalho e resistência.
Uma história que continua sendo escrita
Ao olhar para Macau atualmente, é impossível separar a cidade de suas origens. As salinas, o rio Açu, as ilhas, o litoral e a atividade econômica ligada ao sal permanecem como elementos fundamentais de sua identidade.
A história de Macau não começou apenas quando o município foi oficialmente criado. Ela nasceu muito antes, quando os primeiros exploradores perceberam que naquela terra aparentemente árida existia uma riqueza natural capaz de sustentar gerações.
Da antiga ilha de Manuel Gonçalves ao povoado formado na ilha de Macau; das primeiras salinas registradas no século XVII à consolidação da indústria salineira; da criação do município à emancipação de Pendências, a trajetória macauense é marcada por transformações profundas.
Macau é, acima de tudo, uma cidade construída pela força de seu povo e pela riqueza de uma terra onde o sal nasce do encontro entre água, sol e vento.
E essa história, iniciada há séculos, continua sendo escrita todos os dias por aqueles que vivem, trabalham e ajudam a construir o futuro da cidade.
Com informações do IBGE e Câmara Municipal