
Candidato foi questionado sobre as senhas dos celulares apreendidos pela Polícia Federal e tentou deslocar o confronto para os adversários
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte, promovido pela Band Natal, deixou um sinal claro sobre o rumo que a campanha eleitoral deverá tomar: a Operação Mederi, investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de fraudes e desvio de recursos da saúde pública de Mossoró, tende a acompanhar Allyson Bezerra (União Brasil) durante toda a disputa.
O assunto apareceu logo no primeiro confronto mais duro do debate. O ex-prefeito de Mossoró, que foi alvo de mandado de busca e apreensão durante a operação, foi pressionado principalmente por Álvaro Dias (PL) e Cadu Xavier (PT) a explicar sua relação com as investigações.
A pergunta de Álvaro foi direta: por que Allyson não teria fornecido à Polícia Federal as senhas dos aparelhos celulares apreendidos durante a operação?
A resposta, porém, não enfrentou objetivamente o questionamento. Allyson afirmou ser inocente e, diante da insistência do adversário, mudou o eixo do confronto ao propor um desafio: caso a Polícia Federal não encontrasse nada nos aparelhos, os demais candidatos retirariam suas candidaturas?
A estratégia serviu para tirar o foco da pergunta original, mas não eliminou o problema político. Os aparelhos foram efetivamente apreendidos pela PF e documentos relacionados à operação registram que as senhas não foram fornecidas aos agentes.
O ponto que Allyson não conseguiu afastar
A Operação Mederi não é apenas uma acusação lançada por adversários políticos. Trata-se de uma investigação formal conduzida pela Polícia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da União, envolvendo contratos públicos de fornecimento de medicamentos.
Allyson foi um dos alvos da fase ostensiva da investigação, quando agentes federais cumpriram mandados em sua residência. A investigação também alcançou outros integrantes e estruturas relacionadas à Prefeitura de Mossoró.
Informações divulgadas a partir de documentos da investigação apontam que a PF apura um suposto esquema envolvendo contratos de medicamentos, empresas e possíveis pagamentos indevidos. O nome de Allyson aparece nas apurações, mas ele nega participação e deve ser considerado inocente até eventual decisão judicial definitiva.
É justamente nesse ponto que reside o problema político para o candidato: mesmo que a investigação ainda não represente uma condenação, ela exige respostas políticas mais objetivas de quem pretende administrar o Governo do Estado.
Cadu transforma investigação em arma eleitoral
Cadu Xavier percebeu rapidamente a fragilidade política de Allyson diante do tema e aproveitou todas as oportunidades para recolocar a Mederi no centro do debate.
Ao afirmar que é “ficha limpa” e que nunca teve a Polícia Federal em sua porta, o candidato petista adotou uma estratégia claramente eleitoral: estabelecer uma comparação direta entre sua trajetória e a situação enfrentada pelo adversário.
A provocação mostrou que a Mederi poderá funcionar como uma espécie de calcanhar de Aquiles político de Allyson durante a campanha.
O problema para o ex-prefeito é que, enquanto a investigação permanecer em andamento, cada nova pergunta sobre o caso poderá obrigá-lo a voltar a um episódio que certamente preferiria manter distante do palanque.
Contra-ataque: Allyson tenta virar o jogo
Pressionado, Allyson partiu para o contra-ataque.
O candidato apresentou documentos relacionados ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) e acusou Cadu Xavier de estar relacionado a um processo envolvendo o reajuste concedido a auditores fiscais em 2021, período em que Cadu ocupava o cargo de secretário estadual de Tributação.
Allyson citou o processo nº 1708/2021 e a Resolução Interadministrativa nº 355/2021, que estabeleceu reajuste de 12% na remuneração dos auditores fiscais por meio da atualização da Unidade da Parcela Variável (UPV).
Cadu rebateu a acusação e classificou a investida como um “factoide”, argumentando que Allyson estaria tentando criar uma equivalência entre assuntos distintos para reduzir o impacto político da Operação Mederi.
O debate mostrou uma campanha que promete ser pesada
Mais do que uma simples troca de acusações, o primeiro debate revelou uma estratégia que tende a se repetir durante a eleição.
De um lado, Allyson terá de administrar politicamente uma investigação da Polícia Federal que atingiu sua gestão e que continua sendo explorada pelos adversários. Do outro, seus concorrentes sabem que o assunto pode ser utilizado para questionar sua imagem de gestor e sua capacidade de comandar o Estado.
A Operação Mederi, portanto, deixou de ser apenas um caso policial e passou a ocupar definitivamente o terreno eleitoral.
E o primeiro debate mostrou que, quando o assunto é Mederi, Allyson ainda precisa encontrar uma resposta capaz de convencer não apenas seus adversários, mas principalmente o eleitor que quer saber exatamente o que aconteceu na gestão de Mossoró.
A investigação continua em andamento e, até o momento, não há condenação definitiva contra Allyson Bezerra relacionada ao caso.